Trainee Ensina formado em Ciências Econômicas atuando em escola pública
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3 semanas atrás

Trainee Ensina e Ciências Econômicas: o que a Economia ensina sobre a sala de aula

Para quem estudou Ciências Econômicas, a escola pública pode ser um lugar para colocar teorias em prática, testar hipóteses e olhar para dados de uma nova forma. Para João Fonseca, Ensina da Turma 2025, a experiência também mostrou que, por trás de cada número, existem pessoas, histórias e possibilidades de futuro

Quem escolhe Ciências Econômicas aprende, desde os primeiros anos da graduação, a observar o mundo a partir de decisões, incentivos, dados e relações entre diferentes agentes. Afinal, trata-se de uma formação voltada a entender como pessoas e organizações fazem escolhas e como essas escolhas se relacionam com sistemas maiores.

Mas é no exercício prático que as equações ganham nome, história e contexto. Para João Fonseca, formado em Ciências Econômicas e Ensina da Turma 2025, foi a experiência em uma escola pública de Águas Lindas de Goiás que colocou em perspectiva conceitos que, até então, estavam no campo da teoria.

Um dos conceitos que aprendeu na graduação é o chamado Homo economicus, uma representação teórica de um indivíduo que toma decisões de forma racional, avaliando as alternativas disponíveis e escolhendo aquela que considera mais vantajosa. É como se cada decisão pudesse ser organizada em uma conta: diante de diferentes opções, a pessoa avalia custos e benefícios e escolhe aquela que maximiza seu ganho.

Na vida real, porém, as decisões não acontecem em um cenário tão previsível. São influenciadas por idade, emoções, experiências anteriores, contexto familiar, referências sociais e pelas possibilidades que cada pessoa consegue enxergar para o próprio futuro. E João percebeu isso de forma concreta.

Uma criança, por exemplo, ainda está desenvolvendo a capacidade de avaliar consequências de longo prazo. Pode escolher passar a noite jogando, mesmo sabendo que estará cansada no dia seguinte, dormir durante a aula e não estudar para uma prova, mesmo sabendo que isso pode resultar em uma nota baixa.

É justamente nesse espaço entre a teoria e a realidade que entram os incentivos. Se uma pessoa consegue avaliar cenários e consequências, apresentar essas relações pode ajudá-la a tomar determinadas decisões. Mas, para João, a experiência mostrou que, antes de pensar em qual incentivo usar, existe uma pergunta ainda mais importante: o estudante consegue enxergar valor naquela escolha?

Em uma comunidade onde ninguém que o aluno conhece ‘deu certo’ pela educação, ele não vê valor no estudo. E sem valor não existe motivação.

Foi nesse ponto que sua formação em Economia encontrou uma questão que os modelos não explicam sozinhos: o senso de possibilidade. Para João, ampliar esse senso significa apresentar aos estudantes caminhos que ainda não fazem parte de seu repertório.

Como você faz uma criança que sequer conhece as possibilidades de ser capaz de sonhar? Como se abre essa porta na cabeça dela? Mostrando como o mundo funciona e colocando ela dentro desse mundo.

João encontrou uma forma de fazer isso acontecer. Desenvolveu um projeto que prevê uma visita ao Centro Universitário do Distrito Federal, levando os estudantes para conhecer a universidade, circular pelos espaços e entrar em contato com uma realidade que, para muitos deles, ainda está distante.

A experiência é um exemplo de como sua atuação no Trainee Ensina foi além de levar conhecimentos da graduação para a escola. Ao conhecer de perto os estudantes e o território, João passou a usar seu repertório para pensar em caminhos concretos que pudessem ampliar as possibilidades que eles enxergam para o próprio futuro.

Economia comportamental: da teoria ao teste

A economia comportamental também ganhou espaço na prática pedagógica de João. Conceitos estudados na graduação passaram a fazer parte das tentativas de pensar estratégias para aumentar a participação e o engajamento dos estudantes.

Um dos experimentos partiu da aversão à perda, conceito que descreve a tendência de as pessoas atribuírem mais peso a uma perda do que a um ganho equivalente. No início do período, João deu dez pontos a cada estudante e colou dez tiras de papel em seus cadernos. A cada ponto perdido, uma tira deveria ser retirada.

A nota deixava de ser algo a conquistar e virava algo a defender, com perda concreta e visível. Funcionou pela metade, alguns alunos passaram a defender os pontos, outros não se envolveram.

O resultado mostrou que uma mesma estratégia não funciona para todos. Em alguns casos, a dinâmica de perda acabou gerando confronto. Para João, a experiência reforçou a importância de testar, observar a reação dos estudantes e fazer mudanças quando necessário.

Ele também passou a observar o efeito de superjustificação, quando uma recompensa externa pode diminuir o interesse por uma atividade que já é motivadora por si só. O enquadramento também apareceu,  quando a maneira como uma informação era apresentada alterava a forma como ela era percebida. Para João, no entanto, a experiência também mostrou os limites desses conceitos.

Dos dados para as histórias

Outra característica da formação em Ciências Econômicas que ganhou um novo significado para João foi a relação com os dados. Na faculdade, dados ajudam a identificar padrões, analisar fenômenos e compreender cenários. Na escola, João descobriu que eles também podem ser ferramenta para acompanhar de perto a trajetória de cada estudante.

Nem o dado agregado é tão frio quanto parece. A nota do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), por exemplo, vem dos descritores, e eu trabalho esses descritores um a um, acompanhando o percentual de cada aluno bem de perto.

João conta que os descritores são as habilidades e conhecimentos específicos avaliados em uma determinada área de aprendizagem. Ao acompanhar esses resultados individualmente, ele consegue identificar onde cada estudante está avançando e quais pontos ainda precisam de atenção.

O número, então, ganha outro significado. Em vez de representar apenas uma média ou um resultado agregado, passa a ajudar a responder uma pergunta concreta: como cada estudante está aprendendo?

João acompanha esse desenvolvimento ao longo do tempo e adapta sua abordagem a partir do que observa. Ele conta que alguns alunos que inicialmente precisavam de mais atenção passaram a se envolver cada vez mais com as aulas, outros chegaram a se tornar referências entre os próprios colegas.

Capital humano como responsabilidade

A formação em Economia também ajuda a compreender a educação como parte de um sistema maior. Conceitos como capital humano, por exemplo, permitem analisar como o acesso à educação se relaciona com o desenvolvimento econômico e social. Na escola pública, João passou a enxergar essa relação de uma maneira mais concreta.

Durante um projeto sobre combate à evasão escolar desenvolvido no Hackathon 2026, uma maratona de soluções para desafios da educação pública que faz parte da jornada de transição do Ensina Brasil, essa conexão ficou ainda mais evidente.

A base é a escola. Quando o estudante evade, ele não se torna capital humano especializado que impacta a realidade brasileira: transborda para o crescimento do PIB, para o índice de criminalidade, para a estabilidade econômica, para a qualidade de vida de uma geração inteira.

A experiência mudou o lugar que a escola ocupava na compreensão de João sobre o desenvolvimento do país. A visão sistêmica da Economia continuava presente, mas agora estava ligada às pessoas que formam esse sistema.

Estar na sala de aula é estar dentro do problema, é fazer parte de um sistema que não pode falhar se o Brasil quer avançar. Eu sempre tive fé na educação e sempre reconheci a importância dela. Mas essa importância morava, para mim, na prateleira do bem-estar social. Vivenciar a sala de aula me fez mudar essa visão e entender que a educação está, na verdade, na prateleira da responsabilidade, a de fazer as coisas darem certo. E isso é completamente diferente.

Da Economia para a educação pública

A trajetória de João mostra como os conhecimentos de Ciências Econômicas podem ganhar outros sentidos quando encontram os desafios concretos da escola pública.

Dados deixam de representar apenas tendências e passam a acompanhar o desenvolvimento dos estudantes. Capital humano deixa de ser apenas um conceito econômico e passa a representar pessoas, trajetórias e possibilidades.

No Trainee Ensina, pessoas formadas em diferentes áreas do conhecimento passam dois anos ensinando e aprendendo em escolas públicas, com formação, mentoria e uma rede de lideranças. A proposta parte da compreensão de que diferentes repertórios podem contribuir para a transformação da educação brasileira.

Para quem vem das Ciências Econômicas, a sala de aula pode ser um espaço para colocar em prática uma capacidade central da formação: olhar para problemas complexos considerando os diferentes fatores que influenciam uma decisão.

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